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O vestibular é um meio adequado de seleção?

15/06/2016

O vestibular é um meio adequado de seleção?

*** Atenção! Este texto foi utilizado na reunião do dia 17/09/16 e não foi revisado após esta data, portanto, pode conter informações desatualizadas. ****

Os textos utilizados durante as reuniões tem como objetivo traçar um panorama sobre um determinado assunto. Os textos trazem no seu início uma afirmação, chamada a "moção". Em cada reunião nós discutimos argumentos a favor e contra a moção, que é debatida ao final. É importante lembrar que o USP|Debate não se posiciona a favor ou contra a moção.

Um dos mais controversos princípios que regem a atual sociedade é a meritocracia e os sistemas meritocráticos espalhados pela extensão do tecido social. Os exemplos mais frequentes dizem respeito à vestibulares como ENEM e à seleções profissionais: Na Fuvest, um bastante simbólico, para cada 11 inscritos apenas 1 entra universidade, existindo carreiras onde esse número chega à 55 pra 1, como medicina (dados de 2015) [1]. Em concursos públicos, outro grande exemplo, os números ultrapassam facilmente a barreira de 500 inscritos por vaga, como nos concursos da câmara e da receita federal [2].

Para além da vida profissional, a meritocracia perpassa também aspectos mais pessoais da vida humana. Ao escolher parceiros e/ou se aproximar de pessoas é muito comum, seja de maneira consciente ou inconscientemente, procurar por características que satisfaçam necessidades individuais e egoístas: o humor, gostos semelhantes, hábitos compartilhados, ideologias políticas, a lista é tão longa e variada quanto a própria sociedade.

Indo um pouco além do próprio conceito – Meritocracia por definição diz respeito apenas a seleção de indivíduos [3]. A própria maneira como as pessoas consomem produtos, escolhem suas carreiras e tomam qualquer decisão é amplamente ligada a características presumidas e méritos relativos a cada situação.

Uma das origens mais amplamente aceitas para meritocracia remonta à China do século VI A.C. com o filósofo Confúcio. Ele pregava que os governantes deveriam ser escolhidos por suas virtudes e qualidades e não por suas famílias. A ideia foi posteriormente resgatada, provavelmente pelas colonos inglesas na índia, e se difundiu com o Iluminismo europeu. [4] Vale lembrar que o Iluminismo e a revolução francesa pregavam que todos os homens deveriam ser tratados como iguais, assim a meritocracia seria um modo de julgar pessoas não pelo que elas têm ou de onde vieram, mas pelo que elas são e fizeram.

Apesar de ser um conceito tão antigo e familiar, o termo meritocracia só foi utilizado pela primeira vez em 1958 pelo sociólogo e ativista social britânico Michael Young em seu livro “Levantar da Meritocracia”.  No livro, Young entende o termo de maneira pejorativa, meritocracia estaria relacionada a uma sociedade segregada a partir de dois aspectos principais: A Inteligência e o grande nível de esforço [5]. O autor faz uma crítica, também presente também nos dias atuais, à real eficácia dos métodos de avaliação desses sistemas. [5] As críticas de Young e de uma série de outros vêm de um dos pressupostos mais difundidos e “glamurizados” da meritocracia; o de que o esforço empregado pelo indivíduo será proporcional às suas conquistas sociais. [6]

Essa também é a crítica de uma série de filósofos que fazem duras críticas ao sistema, principalmente baseando-se em que os indivíduos não partem do mesmo patamar social e econômico, e consequentemente, uns devem se esforçar mais do que outros para alcançar os mesmo objetivos. [6] Exemplos fáceis seriam os recordistas olímpicos que, como Usain Bolt ou Michel Phelps, além do treinamento têm predisposições genéticas para suas respectivas modalidades. Quando essa questão se expande para fatores sociais como local de nascimento, deficiência físicas ou mesmo talentos individuais percebe-se que muito dificilmente pode-se acreditar em uma sociedade com igualdade plena.

Em contexto de sociedade essa realidade é bastante refletida em algumas estatísticas: Em uma sociedade onde mais da metade da população se declara negra ou parda essa representatividade não chega a 15% na USP (IBGE 2015) [10], segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) as mulheres ainda ganham em média 22% menos que os homens no Brasil (dados de 2016) [9]. Essas diferenças evidenciam outro aspecto problemático do sistema meritocratico: O universo de oportunidades não se distribui de maneira uniforme na população.

Entretanto existem alguns aspectos bastante interessantes da meritocracia, como os trazidos pelo mestre em economia Joel Pinheiro da Fonseca [8], para ele e pra visão liberal de modo geral a meritocracia faz bem para sociedade como um todo, uma vez que por todos serem obrigados a se esforçar pra produzir mais capital (seja ele financeiro, imaterial ou qualquer outro) a sociedade acabará por aumentar produzir mais como um todo, apesar das desigualdades não diminuírem, ele dá de exemplo um imigrante nordestino que sai de uma condição bastante precária e consegue comprar casa, estabelecer família estável seu filho poderá cursar faculdade, na visão do economista ele não vai quebrar as barreiras sócias de imediato, mas a cada geração um degrau social será ultrapassado. Ele também critica a noção geral que o esforço deve ser proporcional ao ganho de capital, sua crítica vai no sentido de que o valor capital adquirido a uma produção não está plenamente ligado ao esforço empregado nele, ele está mais ligado ao quanto a comunidade acredita e necessita daquele produto, assim algo que seja bastante simples de fazer e vai de encontro com necessidades sociais automaticamente gerará mais capital (financeiro, simbólico, cultural, etc.) que um produto que gere uma quantidade grande de esforço mas pouco útil. Para ele essa é uma maneira mais nobre que qualquer outra, uma vez que a seleção acontece por necessidades da comunidade e não por qualquer atributo do produtor.A despeito de crítica e elogios ao sistema e à própria ideia de seleção de indivíduos baseados em seus méritos, é bastante difícil propor um sistema alternativo para se selecionar pessoas. Etimologicamente a palavra meritocracia foi construída do Latim meritum: “Mérito, digno dê” e do Grego crácia: “Poder” [3], no qual o poder e a importância deveriam ser atribuídos conforme o mérito e o valor de cada ser individualmente, mas não sendo por isso, qual critério utilizar? Outras formas de se atribuir poder já foram exaustivamente testadas também podem ser questionadas como a Aristocracia, onde o poder deveria vir por herança [6] e o Nepotismo, em que os favorecidos são parentes ou amigos próximos via indicação. [7]O caminho para uma sociedade mais justa certamente passará por uma reformulação de sistemas meritocráticos, dos critérios utilizados para se escolher indivíduos, da busca constante para que todos tenham as mesmas oportunidades e possam competir de forma justa. Entretanto, mesmo em um cenário idealizado, o sistema seleção por talentos continuaria se reproduzindo em menor escala, uma vez que nada impediria um indivíduo que alguém que apenas nasceu com determinada facilidade ou capacidades se destacasse dos colegas.

Em vistas destas colocações e dos questionamentos anexados abaixo, discutiremos aspectos conceituais e práticos da meritocracia a partir da seguinte moção para debate:

”ESTA CASA ACREDITA QUE O VESTIBULAR NÃO É UM MEIO ADEQUADO DE SELEÇÃO”

As questões abaixo contém aspectos que podem ser usados tanto para defender quanto para refutar a afirmativa da moção. A arte do debate envolve determinar quais são os mais relevantes, prevendo quais serão usados pelo seu oponente e conectá-los em uma linha de raciocínio lógico.

  1. Existem campos da sociedade que a meritoracia deve atuar? Em quais não deve?
  2. Quais são os critérios a meritocracia deveria adotar e quais não?
  3. Como medir a justiça social? Qual deve ser a interferência do estado em busca da igualdade?
  4. Qual papel da sorte dentro de um sistema meritocrático?
  5. O que seria uma alternativa viável e justa a meritocracia?
  6. Como valorizar as diferenças entre as pessoas de uma forma que valorize a dedicação de cada um? O que seria ‘justo’? E o que seria ‘injusto’ nesses casos? 
  7. A sociedade brasileira é meritocrática? Onde há elementos meritocráticos e onde eles não o são?

Fontes:

  • [1] http://www5.usp.br/wp-content/uploads/Informe-07-2015_Candidatos-por-Vaga.pdf
  • [2] http://ibeg.org.br/2013/01/04/10-concursos-mais-bem-pagos-e-disputados-do-brasil/
  • [3] http://www.dicio.com.br/meritocracia/
  • [4] http://www.significados.com.br/meritocracia/
  • [5] https://www.youtube.com/watch?v=be6ZiM_cTF8
  • [6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Aristocracia
  • [7] http://www.cnj.jus.br/campanhas/356-geral/13253-o-que-e-nepotismo
  • [8] http://www.b9.com.br/62553/podcasts/mamilos/mamilos-53-meritocracia-aristocracia-dos-talentos/
  • [9] http://www.valor.com.br/brasil/4469318/mulheres-ganham-22-menos-que-homens-no-brasil-aponta-oit
  • [10] http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/04/so-ha-merito-com-igualdade-diz-diretor-de-filme-sobre-o-negro-na-usp.html

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