O vegetarianismo deveria ser adotado?

27/04/2016

O vegetarianismo deveria ser adotado?

*** Atenção! Este texto foi utilizado na reunião do dia 17/09/16 e não foi revisado após esta data, portanto, pode conter informações desatualizadas. ****

Os textos utilizados durante as reuniões tem como objetivo traçar um panorama sobre um determinado assunto. Os textos trazem no seu início uma afirmação, chamada a "moção". Em cada reunião nós discutimos argumentos a favor e contra a moção, que é debatida ao final. É importante lembrar que o USP|Debate não se posiciona a favor ou contra a moção.

Produtos de origem animal estão presentes no nosso dia-a-dia de uma forma que nem sempre percebemos: desde cosméticos, roupas, produtos de higiene pessoal até a nossa alimentação. Se pensarmos especificamente no prato tipicamente brasileiro, ele normalmente incluirá algum tipo de carne; tal costume existe desde os indígenas e esse foi influenciado pela cultura europeia, sendo a carne importante tanto para a sobrevivência em ambientes com clima mais extremo quanto para a disseminação da cultura de uma região. Pense na carne de sol nordestina e no charque gaúcho e o que ambos representam tanto no âmbito alimentar quanto no âmbito cultural [1].

No que diz respeito a refeições do dia a dia do brasileiro médio, a tendência é de que a carne fique em primeiro plano numa refeição, sendo os demais componentes do prato considerados como “acompanhamentos”. Com a grande produção nacional de carnes e laticínios e o consequente preço mais acessível, se comparado com a média da maior parte dos países do mundo, o consumo da carne se popularizou, sobretudo com o aumento da renda per capta na última década. Entretanto, observa-se atualmente um aumento na discussão sobre o modo em que nos alimentamos, sendo o vegetarianismo uma das opções alternativas existentes.

O vegetarianismo pode ser definido como uma dieta que se baseia no consumo de alimentos de origem vegetal, podendo ou não incluir a ingestão de laticínios, ovos e/ou mel [2]. Dependendo da delimitação no consumo desses produtos de origem animal, a dieta recebe nomes diferentes. É importante salientar que o vegetarianismo estrito não é sinônimo para o veganismo, já que esse último é também inclui o não-uso de qualquer produto que tenha origem animal (como peles e couro, cera de abelha, seda, corantes de base animal, entre outros). Enquanto que todo o vegano (i.e. aquele que adota o veganismo) é vegetariano estrito, o inverso não necessariamente é verdadeiro [4].

Segundo o IBOPE, estima-se que haja cerca de 15,2 milhões de brasileiros autodeclarados como “vegetarianos” [5a], o que totaliza aproximadamente 8% da população do país. Há diversas razões para a adoção de uma dieta vegetariana; aqui, pontuamos três: (1) saúde, (2) sustentabilidade (incluindo a ambiental e econômica) e (3) ética [5b].

(1) Saúde

A diversificação da dieta com a inserção de mais leguminosas, frutas e cereais traz muitos benefícios à saúde, mas o ponto de maior controvérsia é se retirar alimentos de origem animal seria positivo ou negativo para a saúde. Há alguns estudos que apontam aqueles que seguem uma dieta vegetariana como pessoas com tendência a serem mais longevas [6], além de certas formas de preparo da carne fazer com que essa sofra adição de substâncias que podem ser cancerígenas - como é o caso com processos de defumação (o qual inclui o churrasco) [7]. Outro ponto positivo para a dieta vegetariana é a diversificação alimentar em que o adotante faz, já que deve haver planejamento nutricional alimentar seja saudável e não deixe o organismo carente de nutrientes essenciais, como a vitamina B12, ômega 3 e cálcio [8] [9] [10].

Todavia, não há consenso sobre o impacto da dieta vegetariana na saúde humana [11]. Alimentos de origem animal são boas fontes de proteínas e da maioria das vitaminas e minerais de que necessitamos [12]. Além disso, muitas das evidências negativas são em relação ao consumo excessivo da carne, principalmente a processada [13]. Entretanto, atualmente, observa-se um desbalanceamento no consumo de nutrientes e calorias na alimentação do brasileiro, unido a um estilo de vida sedentário, provoca o aumento do peso da população e o aumento da frequência de diabetes e doenças crônicas [12]. Outro argumento vai em direção ao uso de transgênicos na alimentação, o qual inclui a soja (a qual pode ser a principal substituta da proteína animal numa dieta vegetariana), já que ainda não há evidências sólidas do impacto dessas alterações genéticas no corpo humano. O alto consumo dessa também não é isento de malefícios por haver evidências que o consumo da soja diminua a absorção de aminoácidos, cálcio, ferro, magnésio e zinco [14] [15] [16]; além disso, pode-se substituir a carne vermelha bovina por outras proteínas de origem animal que apresentem menores taxas de gordura saturada ou alterar o modo de preparo dessas [17].

Mais ainda, o uso de pesticidas nas plantações também causam danos à saúde [18] [19] [20], o que também levanta a preocupação em se adotar manejos mais saudáveis aos alimentos de forma geral (como é o caso daqueles considerados como “orgânicos” - [21]).

(2) Sustentabilidade

Recentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) recomendou que houvesse mudanças na alimentação mundial (principalmente nos países desenvolvidos no sentido de não haver mais o consumo de produtos de origem animal, visto que a capacidade da Terra (seja na produção de alimentos, seja a ambiental) prevista para 2050 não seria possível de ser mantida [22a]. Caso essa recomendação seja seguida, mudanças devem ser adotadas o mais rápido possível, e a diminuição do consumo seria um primeiro passo plausível.

Um exemplo de projeto que visa a diminuição do consumo de alimentos de origem animal é o “Segunda-feira sem carne” (“Meatless Monday” no original) [22b]. Ele existe em 35 países do mundo e foi trazido ao Brasil em 2009 pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) [23]. O primeiro parceiro municipal do projeto foi a cidade de São Paulo, o qual adotou a partir de 2011 a merenda vegetariana (i.e. inserção da proteína de soja texturizada ao invés da carne e salsicha) a um grupo de teste como parte da tendência de transformação da merenda escolar. Em 2013, aproximadamente 900 mil alunos matriculados na rede pública da cidade tinham acesso a esse tipo de alimentação quinzenalmente [24].

Um dos impactos ambientais registrados nessa alteração quinzenal na dieta dessas crianças é a economia de 88 mil quilos de carne por mês, o que representa uma diminuição de consumo de 1,3 bilhão de litros de água [25]. Além da quantidade de águas dispendida para o consumo de carne e laticínios, outro ponto que chama a atenção é a emissão de gases de efeito estufa (mais especificamente aqueles que não o dióxido de carbono (CO2) - metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), no caso). Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), a atividade pecuária emite quantidades significativas de gases metano e óxido nítrico. Vide nos gráficos abaixo quantidades percentuais no Brasil e no mundo - observa-se que a principal fonte é “fermentação entérica”, a qual é referente ao processo digestivo de herbívoros ruminantes (como bovinos, ovinos e caprinos) [26].

Aqui, o principal contraponto seria que não necessariamente seria condição exclusiva parar de comer carne: se o consumo for reduzido para algumas vezes na semana ao invés da regra “toda a refeição”, isso contribuiria para que o impacto econômico e ambiental do consumo de carne fosse reduzido. Além disso, também deveria haver uma alteração na cultura agrícola, já que a fertilização artificial também emite gases de efeito estufa e não adereçar a esse ponto também contribuiria para o aumento das emissões. Outro ponto a ser levado em consideração seria que não só a carne é a “vilã” na história - deve-se combater também o desperdício de alimentos, o qual é significativo principalmente na agricultura, já que quase metade da produção de frutas, verduras, raízes e tubérculos é perdida mundialmente (45%, aproximadamente) [27].

Além disso, não podemos esquecer do impacto da indústria agropecuária no PIB brasileiro.

Apesar dele ter retraído 3,8% em 2015, apenas o setor agropecuário cresceu [28]. Dentro da agropecuária, carnes é o principal setor exportador do país, atingindo o montante de US$ 1,05 bilhão em fevereiro de 2016, com a Ásia sendo o principal destino [29]. Demais setores principais incluem soja (US$ 1,04 bilhão), complexo sucroalcooleiro (US$ 952,11 milhões), cereais, farinhas e preparações (US$ 949,40 milhões), e produtos florestais (US$ 932,52 milhões)  [30]. A participação desse setor na composição do PIB  passou de 21,4% (registrados em 2014) para uma projeção de 23% em 2015, além de ter criado 75 mil vagas no período de outubro a dezembro de 2015 [31].

(3) Ética

No que tange ao aspecto ético, matar animais para o consumo humano sem que isso represente uma necessidade para o equilíbrio da cadeia alimentar ou como estratégia de manutenção da própria espécie [32] seria um dos pontos de questionamento principal à alimentação que inclua carne. Além disso, poucas pessoas compreendem na totalidade o que é de fato matar um animal - tanto o é que situações como a do apresentador Rodrigo Hilbert, ao matar um cordeiro em seu programa de culinária em março de 2016, provocou ânimos exaltados por parte de seus telespectadores [33].

Também deve ser levado em conta evidências de que há animais sencientes, ou seja, que têm “... a capacidade de receber e reagir a um estímulo de forma consciente, experimentando-o a partir de dentro”, sendo capazes de experimentar sensações positivas e negativas [34]. Na Nova Zelândia, tal condição foi reconhecida em Lei [35], o que possibilita que maus tratos em animais sencientes tenham punição. A Declaração de Cambridge sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos [36] pontua que os humanos não são exclusivos no que tange “... a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos”.

Como contrapontos, traz-se que a indústria da carne, do leite e dos ovos seja repensada num modo mais ético: que animais deixem de ser confinados, que sofram menor tratamento com hormônios e ração, além da alimentação desses deixar de ser forçada e o processo de manejo e do abate se tornar menos “aterrorizador” ao animal. Outro ponto seria em relação a se ter uma maior transparência no processo de tratamento dos animais, desde a criação até a comercialização no mercado - ou seja, deixar mais consciente o processo de escolha do consumo da carne às pessoas, e não simplesmente como uma condição necessária a ser atendida por todos os seres humanos.

Por fim, há também a possibilidade do uso de outras fontes de proteínas como insetos na dieta dado que são fontes ricas em proteína [37] e não são seres sencientes [38] - tal prática é adotada por mais de 2 Bilhões de pessoas no planeta [39].

Em vistas destas colocações e dos questionamentos anexados abaixo, esta casa discutirá as implicações a respeito da adoção de uma dieta vegetariana no Brasil sob a seguinte moção:

ESTA CASA ADOTARIA O VEGETARIANISMO

As questões abaixo contém aspectos que podem ser usados tanto para defender quanto para refutar a moção. A arte do debate envolve determinar quais são os mais relevantes, prevendo quais serão usados pelo seu oponente e conectá-los em uma linha de raciocínio lógico.

  1. Por que há diferenciação no consumo da carne de cães (adotada na China) e de bovinos, ovinos e suínos?
  2. O que nos fez atribuir afeto a alguns animais e não a outros?
  3. A comida remeter à aparência do animal é um problema?
  4. Parar de consumo de alimentos de origem animal faria com que aspectos culturais históricos desaparecessem?
  5. Quais seriam os benefícios e malefícios do consumo de laticínios e ovos?
  6. Como a localização geográfica influencia na alimentação (e.g. alimentação de um paulistano versus alimentação de um gaúcho)?
  7. Simular alimentos de origem animal com produtos de origem vegetal não seria uma contradição com a proposta de “parar de comer carne” (e.g. strogonoff/bife/bacon de soja)?
  8. A carne seria um alimento que denota “status social” a quem o consome?
  9. Quais são as dificuldades enfrentadas por quem adota o vegetarianismo no Brasil?

Fontes:

  • [1] http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/demetra/article/download/6608/7055
  • [2] https://en.wikipedia.org/wiki/Vegetarianism
  • [3] https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Vegetarianismo
  • [4] http://www.svb.org.br/vegetarianismo1
  • [5a] http://vista-se.com.br/ibope-2012-152-milhoes-de-brasileiros-sao-vegetarianos/
  • [5b] http://idebate.org/debatabase/debates/agriculture/house-would-go-vegetarian
  • [6] http://archinte.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1710093&resultClick=3
  • [7] http://exame2.com.br/mobile/tecnologia/noticias/comer-churrasco-aumenta-as-chances-de-cancer
  • [8] http://receitas.folha.com.br/receita/2179
  • [9] http://www.ivu.org/portuguese/trans/tva-diaryfree.html
  • [10] http://www.vegvida.com.br/site/faq/como-planejar-uma-dieta-vegetariana-491/
  • [11] https://vista-se.com.br/estudo-controverso-sugere-que-vegetarianos-sao-menos-saudaveis/
  • [12] http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf
  • [13] http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/10/oms-associa-consumo-exagerado-de-carne-processada-ao-cancer.html
  • [14] http://ecologiacelular.com.br/soja-a-historia-nao-e-bem-assim/
  • [15] http://articles.mercola.com/sites/articles/archive/2000/04/9/soy-research-update.aspx
  • [16] http://articles.mercola.com/sites/articles/archive/2000/02/13/more-on-soy.aspx)
  • [17] http://www.inmetro.gov.br/consumidor/produtos/teorGordura.asp
  • [18] http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/pesticidas_sao_associad...
  • [19] http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/06/estudo-relacionada-pesticida-ddt...
  • [20] http://www.oncoguia.org.br/conteudo/oms-divulga-nova-classificacao-de-pesticidas-relacionados-ao-cancer/7805/7/
  • [21] http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/saude-bem-estar/alimentos-organicos.htm
  • [22a] http://www.olharanimal.org/consumo/907-onu-recomenda-mudanca-global-para-dieta-sem-carne-e-sem-laticinios
  • [22b] http://www.meatlessmonday.com/
  • [23] http://www.segundasemcarne.com.br
  • [24] http://www.svb.org.br/livros/merenda-vegetariana.pdf
  • [25] http://www.segundasemcarne.com.br/2013/12/20/infografico-mostra-grande-impacto-positivo-da-merenda-vegetariana-em-sao-paulo
  • [26] https://en.wikipedia.org/wiki/Enteric_fermentation
  • [27] http://www.fao.org/save-food/en/
  • [28] http://cepea.esalq.usp.br/pib/
  • [29] http://www.agricultura.gov.br/comunicacao/noticias/2016/03/exportacoes-do-agronegocio-crescem-quase-37porcento-em-fevereiro
  • [30] http://www.agricultura.gov.br/comunicacao/noticias/2016/03/exportacoes-do-agronegocio-crescem-quase-37porcento-em-fevereiro
  • [31] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2015-12/participacao-da-agropecuaria-no-pib-sobe-para-23-em-2015
  • [32] http://www.fao.org/docrep/018/i3331e/i3331e.pdf
  • [33] http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2016/03/rodrigo-hilbert-causa-indignacao-ao-abater-filhote-de-ovelha-em-programa-5111069.html
  • [34] http://www.animal-ethics.org/senciencia-animal/
  • [35] http://www.olharanimal.org/acoes-publicas/5725-nova-zelandia-reconhece-legalmente-os-animais-como-seres-sencientes
  • [36] http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511936-declaracao-de-cambridge-sobre-a-consciencia-em-animais-humanos-e-nao-humanos
  • [37] http://noticias.terra.com.br/educacao/voce-sabia/voce-sabia-que-muitos-insetos-tem-mais-proteinas-do-que-carne-de-gado,b92bc540efa50410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html
  • [38] http://www.veggietal.com.br/seres-nao-sencientes/
  • [39] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141103_vert_fut_insetos_dg

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