Há vítimas do processo de apropriação cultural?

27/08/2016

Há vítimas do processo de apropriação cultural?

*** Atenção! Este texto foi utilizado na reunião do dia 17/09/16 e não foi revisado após esta data, portanto, pode conter informações desatualizadas. ****

Os textos utilizados durante as reuniões tem como objetivo traçar um panorama sobre um determinado assunto. Os textos trazem no seu início uma afirmação, chamada a "moção". Em cada reunião nós discutimos argumentos a favor e contra a moção, que é debatida ao final. É importante lembrar que o USP|Debate não se posiciona a favor ou contra a moção.

O tema de hoje, como tantos outros, é um bocado complexo, e tal complexidade se evidencia já nas diferentes definições e abordagens a ele dadas. Vamos a elas.

1) Talvez o mais frequente dos olhares para a apropriação cultural gire em torno de situações nas quais indivíduos que não fazem parte de um determinado grupo adotam acessórios, trejeitos, vestimentas ou quaisquer outros elementos característicos do grupo em questão.

Um caso, por exemplo, foi o do cabelo da cantora Kate Perry no clipe feito para a música “This is how we do” (1) – ela usa, entre outros, alguns estilos de cabelo que são oriundos de culturas negras.

2) Semelhante, mas diferente em proporção, a apropriação cultural é vista, muitas vezes, como a adoção de elementos de uma cultura por grandes grupos de outra.

Durante a Eurocopa deste ano, acontecida na França, ficou um tanto conhecida, pelo menos para os que acompanhavam algo do torneio, a torcida da Islândia. Além de outras características peculiares, como o tamanho da população do país (pouco mais de 320.000 pessoas), a presença de políticos importantes acompanhando o torneio in loco, o fato de existirem apenas cem islandeses que vivem exclusivamente do futebol e o curioso caso de um jogo no qual aprox. 3% da população do país estava no estádio, a vibração dos torcedores durante os jogos de sua seleção chamou muita atenção. Orgulhosa de sua tradição viking, a torcida adotou uma comemoração um tanto diferente, na qual gritavam e batiam palmas, todos ao mesmo tempo, em ritmo que ia acelerando até o resultado ser um barulho completo. Ao fim dos jogos, os próprios jogadores iam até a torcida e, após os cumprimentos a familiares e amigos (!), replicavam (e regiam) o (agora) famoso canto (2).

Curioso também foi ver que, mesmo num torneio tão curto, de apenas sete jogos (para as seleções que chegaram à final) e duração de um mês, não faltou tempo para outras torcidas “adotarem” a comemoração islandesa. Na metade da competição (aproximadamente uma semana e meia após a primeira “performance” dos Islandeses), já havia torcidas lhes “prestando homenagens” (3 e 4).

Quais os efeitos para a cultura em questão (viking islandesa)? Esse caso diz algo sobre a população (ou pelo menos a torcida de futebol) europeia?

3) Diferente em forma, a apropriação cultural também pode ser vista como dada “de cima para baixo”. Nesse caso, seria “o sistema”, principalmente através da indústria cultural (indústria da moda, cinematográfica, musical, meios de comunicação etc), que se utilizaria negligentemente de tais elementos de um dado grupo e os banalizaria, com a finalidade óbvia do lucro.

É o que se diz, por exemplo, da “operação midiático-industrial” que fez de Elvis Presley o “Rei do Rock”, movimento musical este, até então, quase exclusivamente negro e não aceito pelos núcleos de influência da sociedade estadunidense. Chama-se a esse procedimento de “whitewashing”, algo que pode ser traduzido livremente como “lavar com branco” (whitewashing pode se referir também à utilização de atores brancos, em filmes, séries, novelas, para retratar personagens históricos que não eram brancos).

Os que se posicionam contra a apropriação cultural, em geral, a colocam como existindo apenas e tão somente quando o indivíduo ou grupo “apropriador” faz parte de uma cultura “dominante” em relação à do elemento “apropriado”.

O problema, via de regra, estaria na possível banalização decorrente do uso constante de um símbolo sem que seu significado seja observado, ou mesmo conhecido, por quem o usa. Uma vez que parte da importância dos símbolos é dada exatamente pelo seu significado, um uso “apolítico”, desconectado da motivação e/ou história, enfraqueceria tais símbolos, a ponto de os tirar completamente o sentido, a depender da frequência e massificação do uso.

Cabe dizer que, em todos os casos, é comum a atribuição de intencionalidade à prática (“a apropriação cultural do dreadlock tem o propósito de tornar invisível a resistência do povo negro”, ou “a indústria cinematográfica retira dos povos a sua representatividade para mudar/moldar a percepção da história”). No entanto, por mais que seja legítima a discussão sobre a realidade ou não de tais intenções, o que define se há apropriação nesses atos é a existência ou não dessas práticas nas culturas “apropriadas”.

Ainda no âmbito “indivíduo versus estrutura”, é interessante notar uma diferença cada vez mais reclamada - em movimentos negros, por exemplo: a existente entre opressão passiva (estrutural) e opressão ativa (individual).

Uma frase a princípio simplista e agressiva no tratamento dispensado aos homens, como “todo homem é opressor”, pode ganhar um significado um tanto mais complexo e aceitável quando se entende a independência das ações do indivíduo, ou seja, quando se busca o significado estrutural (contexto social) dessa afirmação.

Suponhamos, por exemplo, que uma mulher esteja andando sozinha, à noite, numa rua praticamente vazia, e perceba que há outra pessoa andando apenas poucos metros atrás. Numa sociedade machista, não parece condenável que haja diferença na sensação de segurança sentida por ela, caso se perceba “acompanhada” por outra mulher ou caso o caminhante seja um homem; na primeira situação, parece justo dizer que a reação mais comum seja o alívio, algo de conforto; no segundo, atenção, apreensão ou mesmo medo. Note-se que o homem dessa história pode ser um ativista da luta contra o patriarcado e pela defesa dos direitos da mulher, mas isso não faz diferença alguma no efeito que ele causa, e o motivo é que todo esse ativismo e toda essa defesa são desconhecidos pela caminhante à sua frente.

Um outro exemplo bastante comum é o de uma entrevista de emprego, na qual concorram duas mulheres, uma branca e uma negra. Aceitando a premissa de que vivemos numa sociedade racista, o simples fato da “candidata 1“ ser branca já a pode colocar em vantagem sobre a “candidata 2” (em especial caso esta utilize símbolos da cultura negra – cabelo black, turbante ou trança nagô, por exemplo).

Caso se leve em consideração questões ainda mais sensíveis e profundas, como a formação das subjetividades individuais pela superestrutura social, ou, dito de forma mais simples, a formação social das pessoas, tais argumentações podem ficar mais claras. Um exemplo de alegação assim é o que fez a professora de direito Elaini Cristina Gonzaga da Silva (5), ao dizer que o simples abrir espaço para todos os alunos se manifestarem não é o mesmo que eliminar o machismo em sala de aula, uma vez que as condições dos alunos no momento da abertura não são mais iguais, já que foram criados em uma sociedade na qual (grosso modo) às meninas é ensinado a servir e aos meninos é ensinado a pensar. No caso dessa professora, foi observado que era comum aos rapazes se sentirem seguros para opinar, criticar, dar novas ideias etc., mesmo quando em grupos com cinco ou seis pessoas, nas quais todas as outras eram mulheres; o contrário não acontecia. É o tipo de raciocínio que leva, por exemplo, à adoção do “lugar de fala”, que considera exatamente o histórico social e, a partir disso, traça cuidados a se ter, caso o objetivo seja dar voz e representatividade igual a todos.

Como dito no começo deste texto, o tema é complexo. E se essa complexidade já é percebida na “disputa” da definição do termo, do outro lado, ela chega ao ponto da negação da própria existência de tal apropriação.

Nesses casos, de negação, trata-se o que outros chamam de “apropriação” por “assimilação”, e não se diferencia entre quaisquer culturas envolvidas na adoção/troca de elementos, nem se tais culturas têm relações desiguais entre si. As culturas não são, então, tidas como intrinsicamente valiosas e nem devem necessariamente ser preservadas em virtude de suas peculiaridades. Alega-se, também, que os indivíduos não escolhem nascer numa determinada cultura, portanto seria absurdo exigir deles que permanecessem nela. Em especial, porque, ao contrário das diferenças entre pessoas, que não podem ser qualificadas (“baixo melhor que alto”, “olho puxado melhor que olho arredondado” etc.), as diferenças entre culturas podem e devem, segundo essa linha de pensamento, ser comparadas qualitativamente e, a partir de tal comparação, cabe ao indivíduo optar pelos elementos que vai ou não mesclar.

Em vistas destas colocações e dos questionamentos anexados abaixo, esta casa discutirá a seguinte moção:

ESTA CASA ACREDITA QUE EXISTEM VÍTIMAS DO PROCESSO DE APROPRIAÇÃO CULTURAL

As questões abaixo contém aspectos que podem ser usados tanto para defender quanto para refutar a moção. A arte do debate envolve determinar quais são os mais relevantes, prevendo quais serão usados pelo seu oponente e conectá-los em uma linha de raciocínio lógico.

  1. Como definir, caso exista, a propriedade de um elemento cultural por um grupo?
  2. As culturas tem valor em si?
  3. Existe limite para a assimilação cultural? Caso exista, qual é? Ou qual o melhor “método” para tal assimilação?
  4. Caso se entenda que não há apropriação cultural, como lidar com os que se sentem ofendidos pela assimilação de traços dessa cultura?

Fontes:

  • (1) https://www.youtube.com/watch?v=7RMQksXpQSk
  • (2) https://www.youtube.com/watch?v=JWoCyDtQ5W0
  • (3) https://www.youtube.com/watch?v=F1jHJ_L_sL4
  • (4) https://www.youtube.com/watch?v=Yl8ZQcSQkM4
  • (5) http://justificando.com/2015/12/01/precisamos-falar-do-machismo-na-universidade/

Tags: debates abertos