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Filhos Biológicos

04/05/2018

Filhos Biológicos

O “Antinatalismo” consiste no pensamento de que nos reproduzirmos é errado. O assunto é discutido há algum tempo, mas ganhou destaque recentemente por conta do comentário polêmico feito pela espanhola Audrey García: “Não é ético ter filhos biológicos”. E ela não é a única com essa opinião. Quem defende tal ponto de vista nega a ideia de povoar ainda mais um mundo repleto de injustiças, de guerras, de fome, de miséria e de tantos outros males que causamos a nós mesmos.

Há quem parta para um viés ambiental: o planeta se mostra quase incapaz de suprir as necessidades da população, e tudo indica que ela será cada vez maior. Questiona-se a validade de contribuir para esse aumento, ignorando a possibilidade de um colapso ambiental (e consequentemente humano). Este é, inclusive, o argumento mais enfatizado por Audrey: é ético povoar um mundo onde já faltam recursos? Afinal, mesmo para aqueles que desejam criar um filho, existem opções como a adoção. Não é necessário conceber uma criança se tantas outras não têm lar. E esse é apenas mais um sofrimento ao qual alguns jovens estão expostos. Portanto, trazer mais pessoas ao mundo não parece ser a escolha mais viável. Somos falhos e destrutivos, e não se vê vantagens em continuar a povoar a Terra. É sequer viável que os humanos continuem a se propagar?

Entretanto, há quem se oponha a essa filosofia. Se estamos aqui para aprender, o que ganharíamos indo abertamente para a extinção? Também se ressalta o direito pessoal de planejar sua família. Talvez não seja certo (ou justo) querer impedir alguém de ter filhos, pois se ameaça a liberdade individual. Outra questão que se coloca contra o antinatalismo diz respeito às gerações mais velhas. Sem reposição populacional, os idosos estariam condenados a viver seus últimos anos de modo precário e descuidado. “Que tipo de extinção lenta e cruel estão querendo?”, perguntam-se os opositores. “Se eles estão tão preocupados com o sofrimento de novas gerações, por que não se preocupam com o sofrimento de idosos que morrerão sozinhos e sem amparo?”. Alguns acreditam que, mesmo que a situação atual seja ruim, é possível tentar instruir as novas gerações para que a tornem melhor.

Há estudos suecos que afirmam que ter filhos pode prolongar a expectativa de vida dos pais, uma vez a companhia e os cuidados desses são benéficos. Isso pode se aplicar igualmente aos filhos adotivos, mas não significa que quem escolhe gerar seus filhos seja incorreto ou antiético; não quando há tantos benefícios em se criar um novo ser humano (seja ele seu filho biológico ou não). Ainda, no Brasil, existe uma burocracia que atrapalha ou impede a adoção de crianças. Sendo assim, como exigir que o desejo de ter um filho seja definido por um mecanismo insuficiente do governo, sobre o qual não há controle direto da população?

Esses pensamentos, apesar de opostos, revelam a complexidade envolvida na geração e criação de filhos: questões populacionais, ambientais, individuais, políticas e até mesmo biológicas. Dependemos de cada um desses assuntos para ponderar. Dessa maneira, qual das posições está correta?

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