USP Debate
redes sociais

Extinção do Vestibular

09/03/2018

Extinção do Vestibular

A palavra “vestibular” deriva do termo “vestíbulo”, cujo significado é “espaço (peça) por onde se entra numa casa, dando acesso, inclusive, às demais dependências”. Por analogia, o vestibular é entendido como um momento que separa o exterior do interior de algo, a saber: a universidade. Consistindo, resumidamente, no processo seletivo característico para ingresso no ensino superior brasileiro.

Uma breve observação do histórico do vestibular no Brasil remonta ao ano de 1911, quando se instaurou a Lei Vegetal do Ensino Superior e Fundamental. Já existiam escolas superiores há quase cem anos, para cujo ingresso se realizavam os chamados exames de madureza. O sistema, no entanto, era elitista e excludente, pois “só entrava na universidade quem cursava um colégio tradicional”. A crescente demanda por formações superiores, reforçando a elite que se formava, e a necessidade de uma economia mais dinâmica, composta por trabalhadores qualificados, fez com que, em 1961, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) permitisse que todos os cursos de grau médio possibilitassem a entrada nos superiores, não apenas os tradicionais, elevando, consequentemente, o grau de exigência das provas e a concorrência entre os candidatos. Com isso, o vestibular se transformou em uma estreita e obrigatória passagem pela qual passava quem pretendia cursar alguma das poucas carreiras que existiam, uma vez que o mercado tinha demandas específicas e a academia brasileira se constituía vagarosamente, limitando, assim, as vagas ofertadas.

Existem dezenas de vestibulares hoje em dia. A Fuvest, por exemplo, nasceu em 1976, para unificar o processo de entrada na USP, Unesp e Unicamp, o que ocorreu até 1983, quando cada uma delas adotou uma forma específica, conferindo mais “peso” às próprias exigências que detinham. Apesar dessa abundância de exames, vivenciamos, nos últimos anos, uma mudança na forma de ingresso para a maioria das universidades brasileiras. Adotamos com muito menos frequência um processo localizado em que cada universidade tem sua própria maneira de seleção, e “preferimos” um que é fruto de um conceito nacionalizado, único. Trata-se do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) surgido em 2009 através do então Ministro da Educação, Fernando Haddad.

No início, era um exame para testar o conhecimento dos alunos sobre as matérias abordadas no ensino médio. Embora não tenha sido criado com o intuito de se tornar uma prova seletiva, devido a sua ampla penetração nacional (acontece em todos os Estados do país), passou a ser utilizado como forma de ingresso em diversas universidades federais e particulares, através do surgimento do SISU (Sistema de Seleção Unificada) no ano de 2010 e da utilização recorrente do ProUni (Programa Universidade para Todos), que surgiu em 2004.

De lá para cá, muitas universidades aboliram cabalmente seus vestibulares específicos para aderirem ao Enem, mas, considerando o funcionamento desse processo, podemos mesmo dizer que um Exame Nacional é um caminho diferente ao trilhado pelos antigos vestibulares?

Pesquisas envolvendo a temática têm se tornado crescentes, pois uma alteração da forma não necessariamente implica modificações no conteúdo. Se comparado a outros países, o cerne do vestibular brasileiro ainda permanece o mesmo do século XIX, ou seja, excludente e elitista. Em sua dissertação de mestrado, a pesquisadora portuguesa Aparecida da Silva Xavier Barros escreveu sobre o contraste contemporâneo acerca da questão. Nesse estudo, ela argumenta sobre a hipótese de o Enem ter se transformado em uma forma mimetizada de vestibular, mantendo, apesar da existência de cotas, o mesmo padrão de exclusão anterior e criando ainda outros problemas. Diante dessa concepção, alternativas tradicionalmente marginais têm sido consideradas nos estudos, como a ideia da extinção dos vestibulares.

Desse embate, percebe-se que uma possível abolição teria dois caminhos: 1-) acabar com os processos seletivos como um todo, eliminando as barreiras de entrada ou 2-) mudar a forma como ele é feito no caso brasileiro. Sendo apenas composto por exames, o ingresso nas universidades no Brasil é bastante controverso. Mesmo com o Enem e as cotas, a relativa baixa qualidade do ensino das escolas públicas não fornece a “base necessária” para a justa competição pelas vagas oferecidas nas Universidades. Assim, o problema inicial continua marcado por uma desigualdade social significativa, pois os vestibulares selecionam, tais quais o Enem, quem tirar a maior nota nas provas, independentemente da trajetória pessoal.

No entanto, o Enem causou uma situação paralela. Barros, em seu artigo Vestibular e Enem: um debate contemporâneo, relatou uma maior defasagem nas faculdades rurais. O exame fornece a possibilidade de se inscrever em qualquer curso de acordo com a sua nota, assim, muitos estudantes começam a faculdade fazendo cursos sem conhecimento da carreira ou vocação para aquela profissão, o que reflete uma falta de autoconhecimento próprio e de reflexão crítica ao final da adolescência (fase típica para o início das tentativas de ingresso, marcadas por insegurança e abruptas modificações de humor). Muitos alunos de baixa renda, antes da implementação de cotas, tentavam os cursos de menor competitividade para conseguir ingressar na universidade. Com a plataforma do Sisu, essa questão foi insuficientemente modificada, embora apresente sinais de efetividade a longo prazo.

Essa característica do processo seletivo universitário brasileiro é considerada, por alguns, um reflexo da própria estrutura dos ensinos fundamental e médio no país. Simon Schwartzman, atual presidente do IETS - Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, critica a falta de diversidade do ensino médio brasileiro e, em entrevista à Revista Ensino Superior, comenta:

"A necessidade de um sistema diversificado tem a ver com os interesses diversificados das pessoas; e também com o fato de que a educação básica é muito desigual, e que nem todas as pessoas têm condições de fazer o mesmo tipo de curso médio. Pelo fato de o modelo ser único - o modelo tradicional, acadêmico, ele mesmo com uma série de problemas específicos -, parte das pessoas não consegue acompanhar o programa e não chega ao final; ou então chega ao final com tantas dificuldades que não tem condições de continuar a estudar e de seguir uma atividade profissional adequada. Temos, assim, um problema de diversificação; e o sistema predominante, que é quase o único que existe, tem vícios e defeitos, decorrentes de seu conteúdo muito formal e do modelo muito antiquado de ensino, enciclopedista. [...]. Os cursos considerados melhores no ensino médio são aqueles que preparam melhor para os vestibulares mais competitivos. Essa formação não é muito adequada."

Entretanto, a defesa da continuidade da forma de ensino adotada no país existe. Argumenta-se que é essencial para o jovem ter um conhecimento básico de assuntos diversos e que o estudante não deve, precocemente, restringir-se a áreas específicas do conhecimento, pois isso limitaria o desenvolvimento de uma visão abrangente acerca dos conteúdos e de suas inter-relações. Nessa visão, o teste geral está dentro do esperado do vestibulando.

Experiências de outros países mostram possibilidades alternativas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o processo de ingresso nas universidades ocorre com requisitos diferenciados. Lá, consideram-se outros fatores além da prova geral. Dessa maneira, o aluno precisa apresentar boletim escolar, cartas de recomendação, textos pessoais, atividades extracurriculares e o SAT (Scholastic Aptitude Test), um exame educacional padronizado que aborda inglês e matemática. O intuito disso é que a universidade aceite o estudante como um todo, fazendo uma seleção por fatores diversos, não restritos a essas ou àquelas competências, daí resultando não em um número exato de vagas, mas um aproximado que oscila de acordo com as avaliações feitas.

Outro país que tem um processo diferenciado é a Argentina. Contrário ao que as pessoas pensam, a Universidade de Buenos Aires tem uma estrutura de ingresso inicial, mas não tem um vestibular. Todos os alunos são obrigados a fazer o Ciclo Básico Comum (CBC), que consiste em realizar matérias relacionadas ao seu curso por um ano. Para continuar com o ensino na universidade, o aluno tem que ser aprovado nas matérias do CBC. Não é considerado por alguns uma seleção por não haver competição e eliminação, a pessoa pode tentar as matérias do CBC até conseguir completar, a vaga está garantida. Contudo, não se pode dar qualquer continuidade ao curso até que se completem todas as matérias do ciclo básico. Pode não ocorrer uma eliminação, mas ocorre uma restrição em função da oferta, como era de esperar.

Chegamos com isso a uma importante questão: a eliminação de processos seletivos para ingresso nas Universidades brasileiras é positiva ou negativa? Creia nisso ou naquilo, essa resposta depende muito da forma com que a escolarização ocorre no país em cada mover histórico e dos interesses aquelas que a conduzem.

Tags: debates abertos