Espetacularização da Morte

18/05/2018

Espetacularização da Morte

Espetáculo, de acordo com o dicionário Houaiss, significa: 1.aquilo que chama e prende a atenção 2. qualquer apresentação pública, p. ex., de teatro, canto, dança 3. algo mais interessante, bom, bonito e/ou vistoso do que o habitual 4. cena escandalosa. Já, morte, segundo o mesmo, significa, 1. o fim da vida 2. término de qualquer coisa 3. fig. grande angústia.

Espetacularizar a morte é, pois, chamar a atenção, tornar público e ou escandalosa a narrativa do fim da vida de alguém. Dessa forma, aquilo que, mais comumente, seria objeto de dor na vida íntima de familiares e de amigos mais próximos vem a ser partilhado (com os mais distintos objetivos) por um grupo bem maior de pessoas.  Há, entretanto, muitos graus e nuances na temática da espetacularização da morte.

A começar, podemos citar a espetacularização midiática. Um exemplo emblemático foi a morte do ator Domingos Montagner, em um acidente no Rio São Francisco, em Setembro de 2016, em que haviam pessoas filmando e fotografando o corpo do ator e compartilhando esse conteúdo via rede social; acompanhando as gravações para flagrar o desespero dos seus colegas de trabalho;  vigiando a família de Domingos para ter imagem da viúva e/ou dos seus três filhos. Além disso, a atriz Camila Pitanga foi ao programa do Domingão do Faustão, para dar uma entrevista sobre a tragédia, ao mesmo tempo em que era acusada de não ter ajudado o ator a se salvar e ter sido alvo de fofocas a respeito de um suposto caso entre os dois.

Outro exemplo de espetacularização midiática é a vida e morte de Lady Di, que tornou-se alvo de paparazzi, com imagens comercializadas em todo o mundo. A princesa morreu em um acidente de carro e teve suas fotos vazadas, as quais estão disponíveis na internet até hoje.

Por outro lado, existe também um certo papel preventivo quando uma tragédia se torna pública. Principalmente em casos nos quais o falecimento é causado por um descuido ou um comportamento de risco, o ocorrido pode entrar no imaginário da população e a exposição da tragédia acaba por coibir que outras pessoas cometam os mesmos erros ou se exponham aos mesmos riscos.

Um outro ponto a se pensar é que a morte, desde sempre, foi um dos grandes mistérios que os seres-humanos encaram ao longo de sua existência, de forma que essa condição inexorável, a de que a morte pode e vai atingir a todos nós e a quem amamos, é capaz de criar uma grande empatia entre as pessoas que se envolvem direta ou indiretamente nas mortes das outras. Como por exemplo, uma mãe que vê um acidente de carro e se sensibiliza pensando que poderia ser seu filho, ou então pessoas que se mobilizam em arrecadar doações para uma tragédia climática.

Segundo o historiador Antônio Bittencourt Júnior, coordenador do curso de História da Unit (Universidade Tiradentes), a morte sempre chamou a atenção, mas hoje é veiculada com muito mais facilidade. “Se levarmos em conta a morte enquanto violência instituída pelo Estado, percebemos que as pessoas sempre assistiram aos enforcamentos, aos rituais da inquisição, com a presença do poder dando legitimidade àquele assassinato. Eram gestos públicos também. Nestes casos, a morte servia não só como punição, mas como um gesto ‘pedagógico’. Uma pessoa poderia ser enforcada publicamente para que os outros percebessem que, caso transgredissem as normas, poderiam ser as próximas; no caso da inquisição, a ideia era fazer com que se cumprisse um caminho reto, de Deus. E de uma forma ou de outra, a morte sempre foi um espetáculo”.

Há também a espetacularização subjetiva, que visa, segundo alguns psicólogos, chamar a atenção para o sujeito. Exemplo de uma notícia de 2011:

“O sapateiro Thayron Herivélton Ribeiro da Silva, 19, matou a tiros a ex-namorada Eloísa Cristina Francisco, 14, a avó dela Euripa das Graças Borges, 57, e feriu gravemente o pai da adolescente, o sapateiro Luciano Borges Francisco, 33. Depois do crime, Thayron se matou com um disparo na boca, usando a mesma arma com que acertou as vítimas. A tragédia foi na manhã de ontem no Jardim Portinari, na casa da família da moça. O rapaz entrou na residência da jovem e atirou em todos que encontrou lá dentro. A irmã de Eloísa, que estava dormindo, saiu correndo ao escutar a confusão e conseguiu se salvar da fúria do sapateiro.”

Em entrevista à Folha de São Paulo de Ribeirão Preto: “Em sua análise, o psicólogo Sérgio Kodato, coordenador do Núcleo de Violências e Práticas Exemplares da USP de Ribeirão Preto, avalia a tragédia como espetacularização da morte para atrair atenção. Para ele, o ponto chave do crime é a rejeição que Thayron Herivelton Ribeiro da Silva, 19, sofreu desde pequeno, ao ser abandonado pelos pais e depois por sua família, quando passou a agredir os avós. "Nessa situação de abandono, ele se apegou à namorada. E quando é rejeitado mais uma vez pela pessoa que ama, vem o desespero e a desintegração da própria personalidade", afirmou o docente.

A experiência da rejeição, segundo o psicólogo, pode ser brutal e acender a sede de vingança, transformando a paixão em ódio. A frieza do rapaz, segundo Kodato, pode ser observada pela quantidade de munição encontrada pela polícia. Para ele, Silva não cometeu somente um crime passional. "Ele foi preparado para uma verdadeira guerra. Da sensação de rejeição, que torna o homem invisível, ele conseguiu atenção espetacularizando a sua morte", afirmou o docente.

Há também a espetacularização da morte como uma certa gourmetização do funeral, atrelado a todos os rituais, como por exemplo o velório. No site de uma das principais empresas de auxílio-funeral do país, três planos são colocados à disposição de quem deseja uma ‘morte tranquila’, para si e para a família. O básico, que custa R$ 19 mensais, dá direito a “urna mortuária sextavada com visor semiluxo, forrada em tecido TNT branco, babado sobre babado, alças varão e verniz de alto brilho”, além de coroa de flores naturais em tamanho médio, sala para velório – se disponível –, carro fúnebre para traslado do corpo, aluguel de ônibus e algumas outras ‘regalias’. Já quem tem condição de desembolsar R$ 50 mensais no plano supervip ganha coroa de flores tamanho grande e caixão de luxo, “modelo Barcelona, acabamento interno em cetim, travesseiro preso, babado nas laterais e sobrebabado ocupando todo o interior, cobrindo toda a extensão lateral”. Outra diferença está na quilometragem livre do veículo destinado ao transporte do corpo: 200 quilômetros na opção mais em conta, 400km na mais cara.

Essa pirâmide social refletida nos rituais de sepultamento é analisados pela socióloga Enedina Maria Soares Souto: “Todos estão sempre muito ocupados, falta um sentimento de aproximação principalmente em relação à velhice, doença e morte. Isso é uma característica típica da sociedade ocidental contemporânea e tem a ver com o movimento de hospitalização no Século XIX, que vai separar os doentes das pessoas saudáveis. Você tem um discurso, também no Século XIX, da Psicologia que vai defender a necessidade de afastamento da criança de qualquer tipo de sofrimento – seja doença ou morte – e isso levado a gerações futuras resulta em uma sociedade despreparada para passar por um fenômeno natural. Esse despreparo encontra suporte no desenvolvimento de empresas especializadas – característica do sistema capitalista”.

E você? O que pensa sobre a Espetacularização da Morte? Há vantagens? Há desvantagens? O que nos leva a querer ou a sentir necessidade de espetacularizar a morte?Tags: debates abertos