A presença obrigatória do aluno em sala de aula é essencial ao aprendizado?

15/10/2016

A presença obrigatória do aluno em sala de aula é essencial

*** Atenção! Este texto foi utilizado na reunião do dia 15/10/16 e não foi revisado após esta data, portanto, pode conter informações desatualizadas. ****

Os textos utilizados durante as reuniões tem como objetivo traçar um panorama sobre um determinado assunto. Os textos trazem no seu início uma afirmação, chamada a "moção". Em cada reunião nós discutimos argumentos a favor e contra a moção, que é debatida ao final. É importante lembrar que o USP|Debate não se posiciona a favor ou contra a moção.

Por que vamos à escola? Uma resposta intuitiva seria “para aprender” – mas aprender exatamente o que e como?

Ricardo Dahis define aprendizado como:

“...a aquisição de uma nova informação pelo nosso corpo. Como a maior parte do processamento de informação em nosso corpo é feito pelo cérebro, essa definição se reduz à aquisição de uma informação pelo cérebro. Note que a aquisição de informações pode tomar várias formas. Pode ser a transferência do ambiente externo para o corpo (conteúdos de livros, professores, ou qualquer outra experiência externa), ou um desenvolvimento interno (aprender a andar de bicicleta), ou combinações desses dois.” [1]

Assim como o destacado na definição, o aprendizado pode se dar pela transmissão de informação feita por professor numa sala de aula. Aqui, é válido destacar que a educação é um direito social assegurado pela Constituição Federal de 1988 (arts. 6º e 7º), com o objetivo de melhorar a condição social dos brasileiros, sendo sua legislação de competência da União [2] (essa feita por meio da Lei de Diretrizes e Bases – 9.394/1996). Ainda, no art. 205, é dito que a educação é dever do Estado e da família; considerando essa obrigação, o art. 4º, inciso I, da Lei de Diretrizes e Bases especifica que esse dever é “... efetivado mediante a garantia de I- educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade” [3].

Ou seja, são 14 anos de educação obrigatória para um cidadão brasileiro. Aproximadamente são 5,7 horas-aula diárias para alunos do ensino infantil (considerando creche, e pré-escola), 4,5h para alunos do ensino fundamental e 4,6h para alunos do ensino médio (dados nacionais de 2010) [4]. Em Xangai e na Coreia do Sul (as quais ocupam posições de destaque na avaliação mundial de sistema educacional), as escolas são de tempo integral [5]. Em contraposição, a Finlândia tem entre 3,75 e 5 horas-aula diárias (um dos menores valores do mundo), a qual apresenta reconhecimento mundial na qualidade do seu ensino [6].

Claro que não é só a quantidade de horas em sala de aula que é crucial para garantir sucesso no processo de aprendizagem, mas também a estrutura física da escola, a qualificação dos docentes e método de ensino utilizado. Dito isso, apresentam-se alguns dos métodos mais conhecidos e utilizados no Brasil (texto retirado de [7]).

Pedagogia Waldorf (antroposofia)

Método de ensino baseado nas conferências que o filósofo alemão Rudolf Steiner (1861-1925) deu a partir de 1919, trabalha em conjunto três âmbitos do desenvolvimento da criança: físico, social e individual. Os alunos são divididos em faixas etárias e não em séries, pois Steiner acreditava que cada idade tem necessidades específicas a serem atendidas. O aluno waldorfiano estuda com a mesma turma dos 7 aos 14 anos. Como o ritmo biológico não pode ser alterado, não há repetência. O método dá igual importância às formações ética, estética e acadêmica. Chama-se Waldorf pois os primeiros alunos de Rudolf Steiner foram funcionários da fábrica Waldorf Astoria, na Alemanha.

Maria Montessori

Com Piaget, Maria Montessori (1870-1952) elaborou uma teoria científica do desenvolvimento infantil. Ao contrário deste, seu trabalho concentrou-se na elaboração de uma proposta pedagógica.

Para Montessori, o ensino deve ser ativo. A criança desenvolve um senso de responsabilidade por seu próprio aprendizado. A pedagogia montessoriana enfatiza a concentração individual por meio da manipulação de objetos. Na sala de aula, a atenção do aluno é desviada do professor para as tarefas a serem cumpridas. O professor é um "guia" que remove obstáculos à aprendizagem e isola as dificuldades da criança.

Aplicação: disposição circular da sala de aula, prateleiras com jogos pedagógicos acessíveis aos alunos, cubos lógicos de madeira para o ensino de matemática são algumas das inovações do método montessoriano usadas até hoje nas escolas.

Construtivismo/estruturalismo de Jean Piaget

O filósofo Jean Piaget (1896-1980) estudou os modos com que a criança entende o mundo espontaneamente por assimilação -organizando os dados do exterior de uma maneira própria- e por acomodação, isto é, "deformando" essa organização para poder compreender a realidade.

Para Piaget, a inteligência lógica tem um mecanismo autorregulador evolutivo. Certas noções, como quantidade, proporção, sequência, causalidade, volume etc. surgem espontaneamente em momentos diferentes do desenvolvimento da criança em sua interação com o meio.

As ideias de Piaget garantiram aos psicólogos que havia um mecanismo natural de aprendizagem e que a escola deveria acompanhar a curiosidade da criança, propondo atividades com temas que a interessassem naquele momento, sem se prender a um currículo rígido.

O russo Lev Vygotsky, contemporâneo de Piaget, desenvolveu uma psicologia também chamada construtivista, mas considerando as atividades interpessoais da criança e a história social.

Pragmatismo

Elaborado no início do século pelo educador norte-americano John Dewey (1859-1952), o pragmatismo ou instrumentalismo baseia-se na ideia de que a inteligência é um instrumento. Privilegia a resolução de problemas e a ciência aplicada. É um modelo de educação que se opõe ao ensino europeu clássico, mais abstrato e concentrado nas humanidades e na filosofia.Na década de 20, influenciou o movimento da Escola Nova, que, no Brasil, tentou a reforma do ensino introduzindo métodos ativos de participação dos alunos na sala de aula.

Construtivismo pós-piagetiano

A Argentina Emilia Ferreiro, aluna de Jean Piaget, expandiu as ideias de seu mestre para o campo da escrita e da leitura. Concluiu que a criança descobre as regras da língua escrita (ler da esquerda para a direita, entender que as letras reproduzem a fala) antes mesmo de ir à escola. Grande parte das crianças se alfabetiza sozinha, desde que imersa num ambiente alfabetizante.

Ferreiro e Ana Teberosky descobriram que toda criança passa pelas mesmas fases ao aprender a ler e escrever e que essas fases determinaram o tipo de erro que cometem. Essas descobertas vêm revolucionando as formas mais tradicionais de alfabetização, baseadas em cartilhas que apresentam apenas fragmentos da língua escrita.

A grande maioria das escolas brasileiras, incluindo as da rede pública, recorre hoje à teoria do construtivismo e às ideias dos teóricos pós-piagetianos. Mudam os materiais didáticos e a organização da aula.

Ensino tradicional

O que se chama ensino tradicional vem de inúmeras vertentes. Nas escolas laicas, o que predomina é uma tradição conteudista centrada no professor, que é um transmissor de cultura. O sistema de avaliação procura aferir a quantidade de informação absorvida pelo aluno. Esse modelo de ensino foi difundido pelas escolas públicas francesas a partir do Iluminismo (séc. 18). Pretendiam universalizar o acesso ao conhecimento para formar cidadãos.

A tradição conteudista, tida como ultrapassada e acrítica durante as décadas de 60 e 70, volta a ter prestígio hoje, mesmo nas escolas que já foram construtivistas. Crê-se que não há como formar um aluno crítico e questionador sem uma base sólida de informação.

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É nítido que mesmo as ideias do “para que serve o ensino”, “como alcançar tal objetivo” e “para que serve o professor” têm suas diferenças dentre os diferentes sistemas. Alguns centram esforços na transmissão de conhecimento (conteudista e tradicional, principalmente), outros na descoberta (Waldorf e Piagetianos, por exemplo), alguns buscando um “indivíduo informado”, outros um “indivíduo autônomo”.

Naturalmente, o papel do professor muda dependendo da orientação adotada: um transmissor de informação, um orientador ou até mesmo um suporte ao aluno (no sentido de um “orientador” ou “guia”). Visões e posicionamentos muito distintos que pressupõem papéis muito distintos também dos alunos e dos pais.

Como exemplo, traz-se o sistema finlandês, por meio do relato de docentes brasileiros que foram para lá estudar o modelo (trechos da reportagem em [8] foram utilizados em seguida). Nele, os alunos elaboram projetos, nos quais são “ajudados” pelos professores, de quem se espera ações que façam os alunos acharem as soluções, sem as entregar diretamente a eles. São as metodologias chamadas de "problem-based learning" e "project-based learning" (ensino baseado em problemas ou projetos). Neles, problemas – fictícios ou reais da comunidade – são o ponto de partida do aprendizado. Os alunos aprendem na prática e buscam eles mesmos as soluções. "Os projetos são desenvolvidos sem o envolvimento tão direto do professor, em que os alunos aprendem não só o conteúdo, mas a gerir um plano e lidar com erros", diz Bruno Garcês, professor de Química do Instituto Federal do Mato Grosso, que pretende aplicar o método em aulas de experimentos práticos.

A resolução de problemas e projetos é parte de um ensino mais centrado na produção do próprio aluno. Ao professor cabe mediar a interação na sala de aula e saber quais metas têm de ser alcançadas em cada projeto.

"Nós (no Brasil) somos mais centrados em o professor preparar a aula, dar e corrigir exercícios. O aluno faz pouco. Podemos dar mais espaço para o aluno avaliar o que ele vai desenvolvendo", diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.

"No modelo tradicional de ensino, quem mais aprende é o professor. Lá (na Finlândia) é o aluno quem tem de buscar conteúdo, e o professor tem que saber qual o objetivo da aula. Para isso você não precisa de muita tecnologia, mas sim de capacitação (dos docentes)", agrega Joelma Kremer.

Uma das motivações maiores desse tipo de metodologia é fomentar independência/ autonomia nos alunos, mas ainda seguindo certas estruturas formais estipuladas pelo governo (como o currículo do ensino básico elaborado pelo Ministério da Educação [9]). Os alunos decidem de quais projetos participam, mas continuam com a grade horária comum a todos, com o mesmo período letivo e a mesma obrigatoriedade de comparecimento. Entende-se que a presença do aluno ainda é essencial ao processo de aprendizado, assim como a presença do professor.

Em vistas destas colocações e dos questionamentos anexados abaixo, esta casa discutirá as implicações a respeito do papel do professor na educação brasileira sob a seguinte moção:

ESTA CASA TORNARIA FACULTATIVA A PRESENÇA DO ALUNO EM SALA DE AULA.

As questões abaixo contém aspectos que podem ser usados tanto para defender quanto para refutar a moção. A arte do debate envolve determinar quais são os mais relevantes, prevendo quais serão usados pelo seu oponente e conectá-los em uma linha de raciocínio lógico.

  1. Como é modelo de ensino brasileiro? Quais suas vantagens e desvantagens?
  2. Pensando num cenário de longo prazo com o aumento de tecnologia, a figura do professor continuará existindo?
  3. Quais os impactos da presença ou ausência do professor no processo de aprendizagem?
  4. Pensando na estrutura de ensino que temos hoje no Brasil (desde o ensino infantil até o doutorado), qual o nível de autonomia do aprendizado do estudante em relação ao professor?
  5. O professor deve ser visto como uma “autoridade” na sala de aula?
  6. Algumas das principais dificuldades relatadas por docentes em sala de aula incluem a indisciplina. Como o Estado, a escola e a família devem agir nesse contexto?
  7. A educação domiciliar é uma alternativa viável no contexto brasileiro? Em caso positivo/negativo, como ela poderia acontecer (ou porque ela não poderia acontecer)?
  8. No ensino tradicional, já conhecemos bem as posturas esperadas, os limites estipulados, as responsabilidades de cada um etc., mas quais são as responsabilidades de um professor numa sala na qual não cabe a ele “passar a matéria”?
  9. Como a facultatividade de presença dos alunos se daria considerando o contexto econômico médio brasileiro, no qual os pais trabalham fora de casa?

Fontes: